Por que escrevo?
Escrevo para não morrer.

(José Saramago)

segunda-feira, 9 de maio de 2011

ANATOMIA DA AUSÊNCIA

Dissequei a palavra vazio
na algema da alma como um traço de estar plena
e prenhe do aconchego em maresia.

Desvirei o avesso do utópico
e do inaudito corpo que se despiu
na ausência, ao fundo do labirinto.

E de algemas e emergentes silêncios,
os fios de sangue e carne se quebraram em prantos,
emergindo o corpo suado da poesia até firmamento.

terça-feira, 29 de março de 2011

A TERCEIRA MARGEM

(Ao admirável Guimarães Rosa)

 

Nas águas do tempo ininterrupto
revelo-me e desvelo
a nudez dos flancos da tarde.

À margem do mundo feito fosca luz
seguro a outra dimensão da margem
do rio que corre no voo da alma.
O rio explode nas veias comunicantes
entre mim, o finito e o infinito.

Enfim, dispo-me
dessas águas do tempo,
penetro na ponta dos pés das palavras...
Ouço do silêncio das outras águas
que o amor é o rio que transcende
a terceira margem para além do Universo.





sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

ESTRÓBILO

(Para Rosidelma Fraga)

Tua alma,
Estróbilo prenhe de poesia,
Distribui-se em sementes.

Sementes lançadas,
De um céu no solo,
A um solo no self.

Sementes levadas,
Pelo vento insular da tua voz.

Sementes plantadas,
Nos vales do mundo a gerar,
A gênese do verso.

Sementes que alimentam de infinito,
Os ócios e vazios do universo.

Fazendo-os férteis,
Repositórios de poesia.

Da poesia de que és,
A forma perfeita e original.

Da poesia que toma o corpo,
Coloniza a mente,
E fecunda o espírito.

Poesia senhora de si,
Poesia sem hora de ser.

Poesia em suma,
Em sumo,
Em soma de vidas.

Poesia vivida,
Princípio vivente.

Das sementes,
A vicejar impunemente.

A crescer inestancável,
No coração de quem sente.

De quem sente, como eu,
A luz chegar de repente.

(Autor: Hebane Lucácius)

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

HEBANE, O INFINITO

De quem são as marcas alvas do sorriso e os detalhes
de cada gesto que ao infinito
da alma a lira evanesce e ordena aos meus olhos que se calem?

Bem sabe um poeta quando as linhas curvas
de uma grande épica se cruzam
entre as brumas silenciosas da alma dos heróis.

‘Stamos em pleno silêncio e a palavra que sempre dominamos,
aquela que tiramos do avesso do verso e a forçamos trocar de roupas
agora zomba da mudez comunicante.

Dispo a imagem sacralizada da canção
e de lágrimas doces diante de ti...
E a voz instaurada em teu ser soa
a lírica e banha as pedras dos pedaços de meu ser.

A alma é o canto de todos os poetas
que se mascaram nas rochas amargas
para ouvir a valsa de Chopin no firmamento.
Desse infinito minha alma deságua
a espera de cada detalhe de tua alma em mim.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

FÊNIX SEM VÉU

 

Não guardarei a palavra extraída
do Véu de Fênix
ou nascida do nada, do Eco e da clareza
de Narciso...
Nem de Eros forçado de gozo e finitude.


O que levarei eu do mundo?
Pressinto rasgar
o destino nas linhas
de meu lápis para afagar a eternidade
do olhar fragmentado.

E em cada minuto
de um verso enjaulado,
torto e incompleto,
os meus pedaços de alma renascem.

Do murmúrio seco e opaco
as cinzas de Fênix imaculada transfiguram em mim
nos cacos líricos da imagem passada.

Vesti o véu de Fênix sem lirismo
Despi cada palavra no gemido
do silêncio e veias comunicantes,
até que Eros viesse sangra a voz inconclusa.


terça-feira, 24 de agosto de 2010

O ERMO DOS SILÊNCIOS

As distâncias somam o ermo
de cada silêncio
entre o vago da alma e as fendas do ser.

Pelos vales secos
o cheiro áspero exala
aqui em íntegro sereno, na luz sagrada
do olhar mudo e umedecido,
até que nossas vozes silenciosas, enfim, se casassem.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

PROEZAS DO BECO

Entre o beco da alma
e o beco da esquina,
Madalena caminha pela rua,
como a coisa real por fora
da fachada do bar.

Entre o espírito de Madalena
e as águas que moveram Deus,
meu ser rasteja pelo infinito
sem desvendar o mistério
de minhas proezas,
ou dos cacos de mim espalhados
pelo sangue da cigana do véu.

Sei que meu ser não se abre para as reentrâncias
dos caminhos de Madalena apedrejada.
Cumpre-se a sina do beco e da alma
Pois entre mim, as pedras e o beco,
a distância do universo me infinitam.

Sou o espelho das prostitutas órfãs
que os anjos despiram no Éden.
Sou o desejo do esmago
e das crateras infindas de Jesus e Eros
na alcova da mendiga passante.

Entre o beco da esquina
e os pedaços de meu espírito,
a transfiguração da cigana e de Madalena sorri
para meu corpo definhado no retrato do passado.


sexta-feira, 23 de julho de 2010

REGA O VÉU DE TUAS ROSAS

(Ao amigo silencioso, Edelson Santana – Julho/2010).

  

Renuncio-te como se rasga
um véu de cada voz e sem a dor
de uma sangrenta perda.
Perder é um ganhar
de tua ausência dilacerada em mim.
Compreendo o avesso do silêncio
e ainda arranho a voz da tua alma.

Interrompi a música muda e asséptica
da epifânica nostalgia nossa.
É esta canção que em mim ficará
Aquela que o tempo mergulhou
no abandono imensurável.
Minha alma borbulhará ao compasso
de teus passos silenciosos e apressados
como as batidas da marcha de Safo por Anactória.

Renuncio-te como se rasga um véu...
Mas a renúncia é tua e minha será a remissão.
Vê-lo- ei em todas as noites
de clarão e no vago
de teu olhar que em mim ficou.
Acariciarei o descompasso
dos caminhos e espinhos que em teu peito cravei.
 
Segue teu destino e rega o véu de tuas rosas.
Meu jardim será regado pela memória eterna
de teu sorriso esmagado pelas folhas do tempo.
O meu tempo é a eternidade do minuto
como se fosse o retrato itabirano,
estático e mudo,
mas comunicável em mim.