Por que escrevo?
Escrevo para não morrer.

(José Saramago)

sábado, 31 de outubro de 2009

ALGEMAS


Enxugo o meu poema molhado
de labirintos proibidos e saudades
para consagrar a eterna renúncia.
A remissão de meus pecados castos
A virgindade das palavras defloradas
no meio da noite clara da embriaguez.

Derramo o castigo de mil anos de civilização
O vinho seco cortando a garganta dionisíaca
E as algemas da alma envoltas no cárcere...
Visto a escuridão de luz no teu sorriso oprimido,
no olhar camuflado de amarguras e desenganos.

Desmascaro a poesia que dissimula a vergonha
da nudez de meus sentimentos confessos e desnudos
A nudez do lençol sagrado e a remissão inexorável.

A morte veio, por fim, sangrar a alma no dia da aparição.
A ressurreição dos corpos no sepulcro bebeu
a minha dor dilacerada no fim da rua.
Vi o sorriso divino escondido nas rendas do véu sagrado
Desatei os laços negros dos olhos secos e cansados
Quebrei as algemas de muitas noites não dormidas
Na busca da completude de um olhar indizível...

Soltei os cabelos amarrados com a fita opaca de cetim
E meus pensamentos estiveram a vagar na ogiva da alma
Porque pensar é adoecer os olhos da poesia e do nada.


 

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

INFINITUDES PASSADAS

(a ti, nos rios infinitos)

Voei na dissolução do tempo
incompreensível e das memórias consagradas.
Oscilei por muitos anos entre o inaudito e indizível.

Neste instante, vivencio o passado interminável.
As palavras que sempre foram minhas
na constante e intensa completude
permanecem agora mudas, como se táteis e surdas.
São palavras medrosas e inexatas.

Abraço-as com lirismo comedido
E no espelho do tempo
Vejo nossos olhares agonizantes
de espera, renúncia e despedida.

Fica a remissão no meio do repleto silêncio...
O afogamento nas águas do tempo
Somam-se aos questionamentos do instante.

Quisera que o poder dessas mãos proféticas
tocasse a quimera, a fantasia e o não dito...
Maldito tempo e infortúnio destino!
As palavras ficaram umedecidas no olhar:
O olhar mais nítido que o Girassol.
Mas o olhar é indizível e mudo
É a covardia das nossas almas gritantes!
Viver é incomensuravelmente perigoso.

Se essas mãos profetizassem
Se esses olhos mudos não calassem o tempo
Voltaria aos rios de nossas águas líricas
e nem mesmo os grandes rios de Babel e Sião
afogariam os nossos laços indecifráveis.

Mas a poesia é incomunicável
Não teria o poder de saltar e voltar ao tempo:
esse tempo epifânico que é a nossa redenção.
A genuína sensação do sonho e infinitude.

sábado, 26 de setembro de 2009

ORGIA POÉTICA I

Dioniso, eis-me nestas escuras linhas
a rasgar o véu nigérrimo
de minha embriaguez.
Desato cada nó da algema...
Assim liberta, assim leve
assim livre...
Livre e cheia de luz.

Um estado epifânico derrama
as taças do vinho doceamargo.
Tuas trevas bacantes se desfazem
e refazem como espumas nas minhas mãos.
Essas mãos de esfera lírica corta todo
o culto da nevoenta noite
As trevas nao mais detêm meu êxtase.
Confesso a força de Mênesis em mim
das Nereidas, ninfas e Vênus com mafuás.
Não poderei jamais negar todas as divindades...
Sim! Bacantes outrora
Dioniso aqui não mais...

Do fogo e para o arroubamento do fogo
e da fogueira vermelha e cega renasci.
Somente a epifania a mim se une
Sacralizada
Sem mácula
Sem escuridão.

Meus olhos ardem na luz do fogo
Há muito mais luz em mim
que a constelação no dia final.

Nua, descalça e liberta assim
de um jeito assim, embriago sim.
Dioniso, deixo-te sozinho agora
na possessão e anímica efusão.

Com a absoluta liberdade
Derroto os instintos corporais
E apodero do Divino
que sempre habitou em mim.
Dioniso não mais:
porque até as correntes da luz de Apolo eu soltei.

Há somente o vinho
e os lábios molhados de minha infinita sede
juntando-se à garrafa quebrada em mil pedaços.
E eu completamente nua
nua,
liberta,
sem remorsos.
Simplesmente sem acessórios e sem véu
Dioniso, adeus!

Rosidelma Fraga.

sábado, 19 de setembro de 2009

CONFISSÕES E SANGRAMENTO

[OU SANGRAMENTO DA POESIA]


Arrasto e suplico
o estancar da ferida poética.
Súplica, vazio e efusiva completude
Contemplação e silêncio.
Pressinto-me sagrando, sangrando...
Eis que uma vaidade nua embriaga
a minha sede sagrada de gozos eternos.
Sempre quis a palavra sem pele
como se nela eu me entregasse sangrando.
A palavra que esmaguei outrora
insiste em ressuscitar.
Amasso-a sem me dar conta
do sangue que se escorre em nossas veias.
Arrombo a porta aberta da minha alma seca
Ajunto os cacos amalgamados do avesso esquerdo.
Rio, porque a denominava morta...
Libertei-me neste minuto.
Ponho-me em decúbito
Soluço de medo feito rato na luz.
A palavra
vai
vem
e volta...
Caída como se arrastada pelos vales
ela implora...
A sílaba chora e bate à minha porta, sangrando...
Eu viro as costas como quem nunca a tocou
Esta é a ingratidão de meu ego.
A palavra, enfim, sussurra em meus ouvidos.
Tento resistir ao contato e piso-a e jogo-a no lixo.
Sangro de paixão e lirismo quando ela quer partir
Arrependo-me e ajoelho a teus pés.
Eis a minha confissão, leitor:
agarro-a com loucura e lirismo
banho cada palavra de espumas
faço todas trocar os acessórios sensuais,
depois me visto diante delas na escuridão,
deixo-a nua e completamente sedenta de mim.
Mas o meu olhar tímido se esconde.
Vou à procura de cada instante eterno
Aguardo os versos que eu ainda irei escrever
no além-túmulo e noutras vidas,
onde a palavra amor estará no útero.
As outras palavras se mordem no elevador
sem nada dizer, sangrando, antes de ser poesia
até que minhas confissões se refaçam por acabadas.


sábado, 29 de agosto de 2009

PEDAÇOS...

Eis-me no instante eterno
inaudível
interdito
completo silêncio.

Descortino a imagem de mim
nos olhos e rastros duma multidão apática.
Aqui em meio ao guardanapo rasgado
a poesia quer nascer no raiar do lixo.

Há muito mais de estranho em mim neste minuto
que as notas cruas do silêncio e abandono.

Paira a sensação de rastejo
quando penso em meus olhos adoecidos
e nas vozes apressadas da multidão epifânica.
Todos vem assistir ao meu estado de lirismo despedaçado
Há mais pedaços de mim espalhados nas escórias do lixo
que mil estrelas no horizonte iluminando os pés
dos transeuntes nas calçadas no raiar do dia.

Um bêbado me olha e canta gargalhadas líricas
como se soubesse de minha longa procura
uma busca de mil anos de civilização.
A remissão
O inexistente
O latente
O inaudível
O indizível
O incomensurável.
Busco a minha própria alteridade
ainda que nascida do charco de lodo
do nada ou do poço das lesões da alma
de um burguês fracassado que amei.

Eis-me agora no palco dos detritos.
Meu Deus, por que me abandonaste?
Se tu sabias que eu era demasiadamente humana
Sabias que eu era fraca e vieste rasgar
os cacos dos guardanapos amassados no lixo:
o lixo sou eu aqui no poema que se desfaz em pedaços;
Há muito mais pedaços de mim espalhados em cada letra
que as pétalas da alma sangrando e banhando
os espinhos que começaram a virar roda do destino.
ROSIDELMA.

domingo, 23 de agosto de 2009

II SE DEVERAS EU MORRER AMANHÃ

Se eu morrer amanhã
Ficarei guardada na memória.
Estarei presente nos jornais e revistas...
Exibirei minhas palavras adoecidas,
minhas dores, meu destino.

Se eu morrer amanhã amarei o nada que fui.
Serei apenas uma folha seca caída
qual poesia amassada no lixo
Simplesmente nada.

Se eu morrer amanhã
não quero mais que poema nos jornais
E a poesia da alma doente em meus olhos
Quero me despir de todas as pedras.
Não quero lágrimas gritantes.
Na verdade se eu morrer amanhã
Quero uma canção de Mozart, Pavarotti,
Chopin ou Bach.
E se não bastasse mais que poema e Vinho
Quero abraçar o Criador e desfilar nua
Infinitamente nua na passarela do universo.

Se eu morrer amanhã deveras
Quero vestir um organdi vermelho...
Ficarei transparente diante de Deus e sem palavras
Olharemos um para o outro
Meus cabelos longos cobrirão os seios do divino olhar.
A pele rosada Deus e sua barba imensurável
unir-se-ão à minha nudez de libertação
E depois não diremos mais nada.






sexta-feira, 14 de agosto de 2009

ESTADO DE GRAÇA


Não morrerei na profecia anunciada.
Viverei hiperbolicamente.
Em silêncio e contemplação,
consagrarei o genuíno instante.
Sentirei o puro êxtase
Abraçarei o mundo interior que explode em mim.

Galardão dos malditos
Salário dos poetas vis.
Viverei e seguir-te-ei na eternidade
de minha existência.

Ainda que assim, de um jeito assim...
sem ter,
sem querer,
sem nada pedir-lhe em troca...
Pois amor é como a poesia...
De graça poetai, de graça dai
Amor e poesia fogem a dicionários.







quarta-feira, 8 de julho de 2009

COMPLETAMENTE NUA!

Eis-me epifanicamente
agora nua... nua na rua...
Nua em instante absoluto...
Não há tenacidade diante de mim
Folgo-me no orgasmo da vida bandida,
uma vida sem graça, mas unicamente minha e nua!
Uma vida que pintei em contemplação de meu
ócio laboroso na escavação da pedra no infinito...

Em meu corpo definhado de lirismo
Eis-me na penetração do Criador.
Durmo com a verdade crua e nua.

Nua e com a boca sedenda,
lavo os pés dos anjos que estão dormindo.
Os anjos dormem nus e eu dou gargalhadas de meu orgasmo.
Eles nunca verão a minha nudez disfarçada
no lençol a espera de Deus.

Ora, Senhor Deus dos homens miseráveis!
Tantos que a mim quiseram abraçar
Tantos que sonharam rasgar a minha alma e morder a minha boca,
despir o meu corpo e banhar o avesso da minha nudez.
Uma nudez de minutos repulsantes que é a materialidade
do corpo __ um encontro sem metáfora humana.
Certamente a paixão efêmera de vermes que não sabem amar.

Eu simplesmente, desfilarei sempre nua
Nua gritarei na rua
Nua beijarei os teus pés e cobrirei-te com meus cabelos negros.
Completamente Nua,
Com meu lirismo catártico e minha boca de romã,
Com a doce Maçã que perdeu Adão,
Entrarei no fogo por ti! Rasgarei o Céu que talvez não mais exista.
Penetrarei nas nuvens
E muito além do infinito... Nua. Completamente Nua!
Gozaremos a incandescente completude.

Rosidelma Fraga.