Por que escrevo?
Escrevo para não morrer.

(José Saramago)

domingo, 4 de abril de 2010

INSANIDADE

De repente o vento frio aquece
o selvagem ígneo de meu delírio
na noite sombria e nebulosa.

Pranteio
Cambaleio
Caio
e depois ergo-me das cinzas das horas tardias.

Rasgo os cabelos e sangro a alma
E todos olham a minha loucura,
meu estado de abandono e êxtase
Não há mais êxtase do que estar sozinha.

Sinto-o aqui em cada minuto eterno
Como se a falta de teu ar em mim
somasse à presença aqui neste instante...
como se a minha vida fosse o perene infinito.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

BÚSSOLA FINAL

Anseio morrer em paz na eternidade
e sozinha no último instante,
sempiterno, ainda que ontológico,
cronos da infinitude, minha virtude.

Eu quero a paz da ultravida
aquela gigantesca quimera,
dissoluta e sem medida, comedida.

Combati sempre o efêmero
E aqui no poema descortinei a bússola
do tempo repentino, destino.

Jamais minha alma abrirá o voo
do eterno enquanto dure, amargura.

Assim pinto meu caminho
sem surpresas e fantasmas,
nada mais que tudo, completude.

A morte instantânea é a cura
para afogar a universalidade
da Ursa Menor, bússola.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

DETRITOS

 

Eu queria neste instante poético
abrigar os cacos de mim e afagar
o abandono debaixo da ponte
qual retalho alinhavado.


Eu queria aparecer inerte
dos trapos das minhas dores.
Eu quisera afagar o menino no pôr-do-sol,
abrir as asas da andorinha recalcada
e nos detritos me encontrar.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

JANELA DAS ALMAS

Da janela quebrada de meu quarto
olho o mundo quebrado,
quadrado,
quadrilado,
quadriláteros,
torto e eu nada.


Na verdade minha alma é menor que o mundo.
Disfarçadamente escondo-me
em cada parte do vidro quadrado
e no lado avesso da escuridão.


A janela do mundo também não se abre
para o olhar patético da multidão que não se move.
Os homens se abraçam nas lacunas
de cada instante e dissimulada completude.


Quem sabe um dia o mundo acordará
com o barulho dos cacos de mim espalhados por aí...
E da janela de meu quarto aprenderá
que as almas esquecidas e tortas celestam.










terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

OLHAR ABSTRATO


Se acaso o menino
tocar a campainha,
pedir pão e chiclete
feito cão sem pele.

Se acaso a mulher
abrir a porta
e não disser nada...
Ficarei muda e inerte
da janela de meu beco
como Branca de Neve no espelho.

Se acaso ouvir os miseráveis
arrastarem à minha fonte
de água e sabão,
saltarei de asas para o ar
e darei as costas para o infinito.

Depois voltarei aqui na folha branca,
sentindo o olhar e o toque do menino.
Olharei da janela abstrata
a fome do mendigo qual cão sem palavras.
A minha alma sairá de mim aos prantos líricos
como alguém que perdeu a pessoa amada.