Por que escrevo?
Escrevo para não morrer.

(José Saramago)

terça-feira, 28 de abril de 2009

ESTRANHAMENTO


(Ao poeta Dante Gatto -

Em certo dia, na encarnação de um eu-lírico).

 

Tudo será estranhamento
o dia em que tua morte chegar.

A luz do dia será a treva
consumindo-se diante de mim.
Todas irão arranhar a tua pele a suplicar que não vá.
Eu não estarei por perto certamente.
Minha ausência flutuante será mais estranha
Que os vermes de Brás Cubas em delírios.

A valsa fúnebre como um Réquiem te seguirá.
A luz não dará mais a luz.
Todas irão embora
olhando para trás
como alguém que viveu e se perdeu.

Minha ausência contemplará o grito final.
Depois da noite a luz será o dia seguinte.
A ausência tua ficará embebida no lençol
E o teu cheiro suado irá ser estranho.

Ficarei aqui querendo ser a Terra.
Todas irão embora e eu quem não chorou...
Eu quem sempre esteve ausente, prantearei.
Beijarei os teus pés como quem amou sempre e nunca se perdeu.
Não terei o encontro absoluto porque poetas nunca amam...
E a minha poesia não canta o tema banal do amor.

Não obstante, rasgarei a palavra do barro
Extrairei toda a minha saudade e estarei sorrindo e gritando
Porque, afinal, meu amor, todas as tuas amantes partiram...
E eu quem nunca o abracei e nunca o beijei
Estive e estarei contigo ao chão do silêncio...
O mesmo silêncio que é a gente demais.



segunda-feira, 23 de março de 2009

EDIFÍCIO DOS BEM-AVENTURADOS

Em vão edificaram os tijolos
de cada porta que nunca se abriu.
A alma, por vezes, é janela fechada
É uma coluna que disseca
na mão do arquiteto.

Em vão espalharam os pedaços
de meu ser fragmentado nas calçadas,
nos terraços, nos jardins e nas praças públicas.

Em vão meus pés emigraram por toda parte
à procura dos edifícios sólidos.
Em vão entrei nos grandes templos
para ouvir a voz que sempre me calou.

Caminhei entre os espinhos e as pedras,
entre lixos e seres marginais...
E tudo isso foi mais útil que as coisas vãs.
Porque aprendi que em vão os grandes templos
e os astros se desabam na morada dos soberbos.
[Bem-aventurados os que creem em Deus
e não cantam as religiões.
Bem-aventurados os poetas, os bêbados
e crianças que amam e nunca sabem para onde vão]

Os poetas não absorvem as pedras dos arquitetos.
Os homens apedrejam em vão nas ruas, nos becos,
nas esquinas noturnas até o fim do mundo.

Em vão amaldiçoaram a minha existência
Porque todos que me atiraram pedras
não tiveram a grandeza e a sensibilidade.
Os soberbos não souberam ouvir as notas sacras,
nem a música do avesso da alma dos esquecidos que amei.

Em vão calaram para não tocar na voz silenciosa
que brotava a flor entre o lixo e a luxúria.

Em vão trabalharam os homens hipócritas
Porque eu fiquei como a criança sublime
que sorri da simples rosa amassada no meio do caminho.

segunda-feira, 16 de março de 2009

TERCETOS E DÍSTICOS DA MINHA MORTE (continuando)

EPITÁFIO DA POESIA (novo título)

Se acaso eu morrer amanhã
Não escreva em meu túmulo
palavras que nunca escreveria.
Adeus é palavra excluída.
Quero estar presente.
Quero a vida presente
Sem pressa de futuro.

Não me venha com mafuás
com flores e novenas!
Quero sempre a poesia com algemas.
Não cante nem invoque as estrelas
Nunca fui amiga de Bilac.
Não toque a valsa fúnebre
prefiro uma valsa de Beethoven
nas lonas azuis do firmamento.
Não digam que sou imaculada
se tantas vezes me apedrejaram.
Não cante a minha poesia
se ela sempre foi a rejeição.

Mas digam a todos em todos os bares
em todas as ruas e em todos os jornais,
que a poesia se cravou em meu túmulo:
AQUI JAZ A POESIA, IPSIS LITTERIS.













sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

SONATA PARA VOZES SILENCIOSAS

(Exclusivamente a um poeta maldito)

As vozes silenciosas convidam-me ao poema
Na verdade ele já estava aqui pronto
Antes mesmo de saber que iria nascer.

Benditas são as palavras, o violino, a flauta
e os arpejos que tocam dentro de mim.
Quiseram-me atribuir as qualidades da náusea lírica
Ou de um ser fragmentado como mil cacos sem voltas.
As voltas que a música dá são mais consistentes
Mais fortes que as flores vermelhas jogadas no lixo.

Na verdade é o réptil medroso que não ouve a valsa
Sabe apenas que não ouvirá mais a minha história
O mundo está completo de renúncias e sagas
Eu sou o próprio abandono sem metáforas.
Olho o ser retraído e ouço o silêncio da sonata.
Ele estende-me a mão, suplica em silêncio, mas não há futuro.
O maldito verme sabe que não haverá completude.
Então finge não sentir o amor do outro lado da vida
Acredita ter vivido o bastante, mas sem vida absoluta
Porque o verme dura tão pouco como a Flor: ambos definham.
O que restou?
Sobraram comigo a palavra muda e a música de Bethoveen.
E não comunicamos mais nada.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

ADORNOS

Adornai-me de pétalas.
Pétalas vermelhas
Rosas que se esmagam.

Adornai-me deveras
de espumas flutuantes.

Em verdade, não quero rosas e espumas,
Quero tocar nas algemas de cada verso nu:
um verso sem misticismo e filosofias.

Diante do verso adornado de rosas,
vai a minha alma enciumada.
Entretanto, coroaram-me de pedras...
Pedras que eu rejeitei e nem mesmo sonhei.

As rosas e as espumas ficaram diante de mim.
Supliquei ainda com última voz:
Adornai-me de pétalas
Pétalas amarelas, rosas, vermelhas, secas
ou assim mesmo de náuseas.
Que sejam pétalas feias e secas,
mas, coroai-me de rosas
na hora de meu adeus à explosão do mundo.

 

 

 

domingo, 8 de fevereiro de 2009

TRAÇOS

Retalhos costurados

de palavras

são meus traços dedilhados.



Traços em pedaços

são meus dias velozes pelas ruas

e pelos cacos de cada verso

que ainda minhas mãos não juntaram.

VERME SUBLIME

O verme ergueu-se de suas escórias
Rastejou
Cambaleou
Caiu.

O verme é simplesmente o verme.
É feio como a flor no asfalto.
Não há nada mais significante que um verme retraído.
Tremendo de frio e medo está o verme...
Eu me vejo agora em petição de verme...
Em fragmentos;
Em estado de abandono e de tudo que suscite piedade.

Ora, um verme é sempre o desejo de esmago
de exterminação de futuro.
Pois não há presente, nem esperança diante dele.
O verme sou eu aplaudida pela rejeição do mundo.
O verme foi roído pelas ruínas do lixo
O verme ergueu-se no entulho sublime.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

REVERSOS E ESCRITAS

Ainda que eu cantasse
o futuro...
Ainda que profetizasse
o amor e a quimera...
Não viveria o bastante
para traduzir a face oculta
da caligrafia desses versos...

Nem mesmo seria a caligrafia oculta
de cada poema que escrevi.
Eu sou apenas a poesia algemada
que ainda meu verso não escreveu:
o reverso das palavras jogadas na poeira
no charco de lodo e no deserto das vivências.
Eu sou ainda o véu sagrado das palavras
a suplicar pela completude imaculada.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

UMA HERANÇA ALÉM DOS MARES NAVEGADOS: O ENTUSIASMO PELA LITERATURA.





Por Rosidelma Fraga




O entusiasmo é uma força advinda dos deuses que se inspiravam na concepção de Ceres (deusa da agricultura). Para ela, a colheita seria favorável e benéfica se as pessoas tivessem o entusiasmo. Era preciso, antes de tudo, entusiasmar-se. Pode-se asseverar que o entusiasmo é diferente do otimismo, visto que o vocábulo significa acreditar que algo vai dar certo, ao passo que o entusiasmo consiste na perspectiva de crer em si próprio. Logo, entusiasmada é a pessoa que acredita na transformação da realidade através de atitudes positivas e encorajadoras e que, sobretudo, confia na força de vontade que as pessoas têm de transformar o mundo e, mormente, a própria educação.E você sabia? Segundo GEORGES (1995, p.35) só há uma maneira de ser entusiasmado: “é agir entusiasticamente! Se esperarmos ter condições ideais primeiro, para depois nos entusiasmarmos, (...) jamais nos entusiasmaremos. Não é o sucesso que traz entusiasmo, é o entusiasmo que traz o sucesso”.A partir dessa reflexão, neste momento, gostaria de perguntar a você digníssimo leitor, como vai seu entusiasmo pela literatura? Como vai seu entusiasmo para devorar os discursos machadianos, a narrativa brilhante de Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Clarice Lispector, Lígia Fagundes Telles, Érico Veríssimo, Bernardo Guimarães, José de Alencar e outros cânones? Como vai o seu entusiasmo para navegar nos poemas de Camões, o poeta que ensinou a tantos e nunca envelheceu? Como vai o seu entusiasmo para se encantar com a poesia de Carlos Drummond de Andrade, de Fernando Pessoa, de João Cabral, das nossas goianas Cora Coralina, Yeda Schmaltz, dos inconfidentes mineiros, de Gonçalves Dias e outros grandes poetas que marcaram a literatura? Será que durante o curso você se entusiasmará em ler, por exemplo, as 445 páginas de O Evangelho Segundo Jesus Cristo de José Saramago e depois procurar uma outra obra para contrastes? Ler os fantásticos Murilo Rubião, José J. Veiga e tantos mais? Ou ler ainda toda dramaturgia de Shakespeare, Nélson Rodrigues, o teatro de Gil Vicente, Martins Pena e tantos outros? Hum!...E como vai seu entusiasmo para comparar Eça de Queirós com o intitulado “ambíguo” Machado de Assis, ou a épica de Camões e Fernando Pessoa, ou com tantos autores que se dialogam na literatura? Ufa! Tudo isso! Tudo isso e muito mais é possível se você se olhar para dentro e acreditar no entusiasmo que carrega muito antes de saber.Tudo isso é uma gota perto do que você é capaz de saber, como escreveu o físico Isaac Newton: “o que sabemos é uma gota e o que ignoramos é um oceano”. Efetivamente, bem mais que isso é possível porque Fernando Pessoa grafou nos livros que “navegadores antigos tinham uma frase gloriosa/ navegar é preciso”. Navegar? Sim. Navegar no mundo da literatura só depende de você com sua visão crítica sobre o entusiasmo. Acredite e aceite o desafio! Pense rápido e decida rápido. Ou ficará sozinho para trás vendo a ascensão intelectual dos outros. Pegue dois, três, quatro e muitos livros e comece a deliciar-se pela intimidade das palavras, por intermédio do entusiasmo que existe dentro de você. Aceite rapidamente o ensinamento de Drummond “as palavras têm mil faces secretas sob a face neutra”. Penetre na poesia. Leia Drummond e descubra pelo menos as cem faces e já estará transformando a injustiça da estimativa de que os brasileiros lêem dois livros por ano. Está nas suas mãos, futuro educador, contribuir com a mudança e aceitar entusiasticamente que a leitura é uma herança milhões e bilhões de vezes acima da dívida externa brasileira.No final do eterno recomeço, tu verás que diante dos simples gestos haverá uma enorme gama de conhecimentos adquiridos que nem mesmo o iceberg, destruidor de O Titanic, e os grandes “mares nunca dantes navegados” de Camões ser-lhe-ão capazes de roubar de ti. E o triunfo maior de todo esse entusiasmo será o fato de viver melhor, sorrir e sentir-se novo quando alguém olha para ti e pensa que envelhecestes, conforme ironiza o poeta Manoel de Barros, numa entrevista ao MTTV: “quem disse que sou velho? Eu não sou da terceira idade porque lendo e escrevendo palavras descobri que agora, aos 90 anos, entrei para a terceira infância!”.
...
(Texto da professora Rosidelma Fraga, escrito, em partes, para ex-alunos da Unemat e reescrito para os alunos da UFG/CAJ, publicado pelo Jornal Cidade de Jataí.)