Por que escrevo?
Escrevo para não morrer.

(José Saramago)

domingo, 3 de junho de 2012

CORRENTES PERPÉTUAS

Os nós das correntes perpetuaram-se
num dia de luz, epifania e visitação
como se fosse Prometeu em dia de Sol.

Beijei as mãos e os braços
de um Deus de corpo suado.
Os laços vermelhos rasgaram
o Amor, a ausência e a nostalgia.

A tríade dessas palavras cravou
em cada flor de ternura,
em cada afã de magia,
em cada verso de súplicas...

Eis que estando domadas,
as palavras fizeram-se verbo
e encadearam-se a mim
na prisão de todos os poetas.

 

 

sexta-feira, 11 de maio de 2012

PERFUME TEU PRESA MINHA








Tenho um nó
de saudade
rosnando alma adentro.
Sinto teu perfume
debruçado
num lenço
de cetim e poesia.

Guardo na página
de um velho livro
o teu olhar sangrando
de ternura no corredor.
Escondo o minuto eterno
de teu desejo a sete chaves...
e assim eternizo em mim
as marcas de teu corpo.

domingo, 29 de abril de 2012

SENTIMENTO DE MUNDO


Curvo-me sempre a olhar
a essência das almas amarradas.
Por vezes inerte, esmago
o decúbito desumano
dos desamores  no calabouço.

Hoje mesmo dissequei uma alma
negra, seca, sem cor e sem rosas.
Migrei para um vale seco
e moldei um esconderijo de folhas.

Horas depois não tive piedade humana
Medi cada pedaço das almas que tenho
Pois não sei quantas haverei de conquistar.

Velei e desvelei pelo verso mais íntegro
Escrevi a poesia inútil de todos os mortais...
O homem é o bicho devorador de si mesmo.

 

 

 

domingo, 22 de abril de 2012

GLÓRIA PEQUENA



Celebro a glória minúscula do que sou
Saboreio a sensação de tudo em nada.
Tenciono a caligrafia inútil
de todas as minhas especulações.


Sinto hoje uma completude no gozo
de não ser absolutamente nada.
Desfolho o arranjo da metafísica
e do amor platônico que guardei comigo.
Vivo como quem abraça a escória
e sente um imenso oceano nas mãos.


Enquanto o destino me conceder,
esmagarei o pavão retorcido
que cada raça tem dentro de si.


Haverá uma glória estúpida
a me banhar na aba do infinito.
E vestindo-me das pequenas coisas
Que mais haverei de querer?

domingo, 15 de abril de 2012

A TERCEIRA MARGEM DA ESPERA


Espalhei os cacos da solidão
e cantei a aurora da penumbra.
Estive distante de meus sabores
Naveguei no rio negro de tua alma.

Esta crua realidade visita-me
toda noite no além-mar.
Zombeteira,
ela despe as duas vidas que tive:
uma coberta de nada,
a outra camuflada de vazios.

O que importa não é a terceira
margem da espera
no outro lado do rio?

É por isso que prezo a lembrança
do inesperado
do encontro desmarcado
e das horas esperadas.
Afinal,
O que importa não é a hora da chegada
Mas o sentido imensurável da busca.
Importa é a cicatriz de teu corpo
na pele oculta da minha ausência.

domingo, 8 de abril de 2012

MARCAS DE BATOM

Deste oceano de pedras
ninguém abrirá a janela
a mirar o cheiro
da espuma em mim submersa.
Nem mesmo a lua fria
e a constelação adornada
de amores e desencontros.

Eu certamente
esmagarei os cravos
na coroa da alma
que veio banhar agora
toda leve e solta
nas ondas de maresia.

Um mar de saudades
veio curar a cicatriz
do batom vermelho
nos botões de tua camisa
que nem mesmo toquei.

Bebi do mesmo mar salgado
acariciei a brandura seca
de teus pés silenciosos...
Por fim beijei a tua alma tatuada
e o teu olhar veio cravar
nos pedaços de minha essência.



quinta-feira, 29 de março de 2012

AVISO PRÉVIO DA AUSÊNCIA

Na folha molhada
da palavra em branco,
eu rabisco um aviso prévio.

Faço malabarismo de risos
não porque desnudei a solidão,
mas por estar previamente
sozinha.
E diante da folha lírica,
vislumbro uma aguda
completude no silêncio.
Pois a ausência,
(minha doce namorada)
saiu por um instante.
Ela estava acorrentada por mim,
mas voltará adornada de ternuras.

E eu deixarei de ouvir
as notas do abandono
que em mim sempre deságua.
Uma vez que
entre o vazio e o nada,
a escuridão e a luz,
o silêncio me transcende.