Por que escrevo?
Escrevo para não morrer.

(José Saramago)

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

VERSOS DE ESPERA

Se amanhã eu escrever que te espero,
sem pressa ou voluptuosos delírios,
sem olhar o devaneio do inaudito silêncio
ou a suja poesia que amassei no lixo?

Se eu escrever a epifania da tua aura,
da alma borbulhando no fogaréu?

E se eu pintar o verso erótico mais puro,
sem nunca ter dito a palavra AMOR?
Não sei se escrevo ou se escondo o verbo...
AMOR é substantivo abstrato e intransitável.

Declaro, enfim, que meu verso romântico
se perdeu na lama da escuridão
e voou nas chamas de tua ausência,
a virgem amante de todos os meus dias.







 

 

 

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

VERSOS INACABADOS

(Um poema para Rosa, minha mãe).

 

Se acaso a mão fechar os olhos
de meus versos intermináveis...

Se porventura
o verbo imperfeito
tocar a Valsa de Natal,
no saltério de dez cordas...

Saltarei do crepúsculo
de meus dias
e navegarei para além do além-céu...

Das galáxias darei as costas
aos livros que não escrevi
E vestirei o germinar da poesia
nas asas do anjo querubim.


segunda-feira, 3 de outubro de 2011

MEMÓRIAS DO RETRATO FALADO

1957. Era manhã de maio, onde as flores nuas e a primavera do destino invadiam brutalmente a casa localizada próximo à Rua Esplanada dos Ministérios, ao lado do Lago da Presidência, no lugar de meditação e reflexão dos governantes e de curiosos que tentam cheirar episódios dramatizados pela mídia eletrônica, talvez com a intenção de serem destacados na primeira página do New York Times.
Ao que tudo demonstrava, o imóvel fora abandonado, há pouco, por tempo determinado, conforme resguardava o retrato sob o bilhete que eu li posto à mesa da sala central, próxima à alcova similar a um Jardim do Éden, garantindo ao meu leitor que eu (uma narradora e testemunha fiel) comprovei cada cena com olhar de microscópio, ainda que num ambiente mórbido, inconsciente, psicológico e sobrenatural, porém paradisíaco.
Assim dito, sob a cama repousava o vulto da mulher amada, cuja beleza vinha pintada no tecido emoldurado da colcha que lembrava o retrato falado de Ofélia, deusa do Príncipe dinamarquês, o então Hamlet e até mesmo a figura da amada de O retrato oval, de Edgar Allan Poe.
Ali disseminava o perfume do arrependimento, provocado pelo mais fugaz amor e, sobretudo, pelo efeito catártico do ciúme tão doentio e perverso quanto o amor de Otelo por Desdêmona.
Ao lado esquerdo do criado-mudo, o sangue, já homogêneo pelos dias, enegreceu ainda mais a alcova solitária da mesma forma que a alma nigérrima de Manon Lescault agonizava no sofrimento por amores proibidos.
O mistério soava no ar! Por tal razão, resolvi excelso leitor, desatar os fios desse conto do começo ao fim da meada. Confesso ainda que o místico incomensurável doravante iniciar-se-á, justo na década em que Getúlio Vargas optou pelo suicídio, ato comumente ao que presenciei sem complacência.
Sobressaltada, atirei fixamente na porta ao lado...

__ Céus! __ Soltei um grito quase que estático.
__ O quê? __ Mensurou o policial, com olhar de tremendo espanto...
__ Por que gritou?
__ Foi o vulto --- respondi olhando para todos os lados...
__ Por acaso o vulto é um ser vivo?
__ Em Hamlet e nesta narrativa real agora sim!
Poft! __ Caí. Tive um leve desmaio mortal, indo ao céu falar com Arcanjo em 5 minutos e 3 segundos; tudo isso por conta do medo que se instaurava em minha psique, ao testemunhar que a casa outrora fora habitação de férias de Getúlio Vargas. Aliás, a nota do Jornal relatava que o Presidente do Brasil morrera após concluir toda a biblioteca shakespeariana. Naquele tempo ainda não existia o Diário de um mago.
Entrei em transe medonho, tive pânico e tormentos até do espelho e da minha própria imagem refletida, tal como Narciso sem a beleza na água.
Com enormes temor e tremores, aos poucos, cuidadosamente, fui abrindo os olhos. Ergui-me do chão como o pássaro Fênix erguera-se das cinzas e agarrei a parede como se ainda estivesse conversando com Arcanjo Miguel ou com Lúcifer no caminho de volta do nevoeiro quando me deparei com algumas almas penadas...
Acendi imediatamente o lampião. Fui até os quartos dos fundos com uma inquietação e pulsação no peito, pensando nas baratas de G.H e no inseto piedoso de Kafka, do livro Metamorfoses, figuras as quais também encontrei no caminho do paraíso, assim como o Brás Cubas que partiu defunto-autor em décadas passadas que também tive a honra de trocar duas ou três palavrinhas sobre o enterro.
Sentei na poltrona empoeirada e alcancei o relato da ocorrência registrada num papel escrito à mão. Um mistério que descreverei na íntegra, para que você leitor, não tenha nenhuma dúvida quanto ao fim do inquérito. E espero que tome as conclusões verossímeis da investigação paulatinamente.
“Aos dias 19 de maio, ano de 1958, quando ainda a dama da noite estendera seu véu sobre o horizonte e revelara o amor proibido. Tratava-se do caso de um Senador Nélson Rodrigues, carioca, e Lígia, prostituta, vindo de Moçambique, com 17 anos, a qual fugindo das explorações nas ilhas africanas acabou tornando-se vítima de mais uma das catástrofes contra a mulher no Brasil que tanto pode ser de cor branca ou pele negra, todas, sem distinção de raça, religião se tornam objetos sexuais nas mãos de políticos que abusam dos “poderes”...
De fato, houve trevas quando tudo aconteceu. O céu rasgou seu manto em duas partes, toda nudez foi revelada e castigada. Na cama, desfaleciam os corpos de Nélson e Lígia, cujos rostos simbolizavam o romper da mais pura paixão em glórias e delírios...
Ao lado, o marido, policial, de 29 anos, apunhalado pela tragédia, dava seu último brado, imitando o Cristo na cruz do calvário. Na mão esquerda, a aliança caía, rompendo-se com o pacto do amor conjugal, ao passo que na mão direita, o revólver se posicionava estirado. Encerrava-se o inquérito de todo o sangue derramado naquela casa abandonada, um ano após o suicídio do Presidente da República.
Imagine o leitor que eu dei alguns passos pelo quarto, cuidando para não sujar meus pés de sangue. Esse, ora estava rígido, ora ainda flexível. Mais adiante, soltei fortes gargalhadas líricas como no teatro da semana de arte moderna com a declamação do poema Os sapos, do nosso querido amigo Manuel Bandeira. E foi assim, aos risos e aplausos que li uma epígrafe contida na folhinha empoeirada na parede, do livro Apocalipse. Transcrevo as palavras ipsis litteris:

“E lá no céu não haverá mais pranto, nem terror, nem dor. A morte não existirá... só herdarão o Reino os limpos de mão... ficarão de fora os adúlteros e os homicidas. Mas o Deus todo poderoso limpará dos olhos toda a lágrima e os justos viverão felizes para sempre”.


(Rosidelma FRAGA - Conto publicado na Revista Norte@mentos - Edição 7 Estudos Literários 2011/1.
Disponível em:
http://projetos.unemat-net.br/revistas_eletronicas/index.php/norteamentos)

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

ORFEU

 

Sangrando as mãos abrem-se
ao som da cítara,
com longas notas da ninfa
enlaçada pelo véu da serpente.

Das profundezas do Hades
meu canto em nebulosas vozes
vem soar para o firmamento.
Orfeu dorme, Senhor Deus
Orfeu nem olha para trás
Como fez a mulher de Ló.

Nem mesmo Virgílio
no meio dos versos proféticos
levar-me-ia às algemas emergentes...
Aristeu já está morto
Resta-me soltar as correntes e as dobras da morte
que encadeiam Orfeu...
Mas Orfeu eterniza-se no tempo de minhas memórias.
O passado é o tempo ininterrupto
É um minuto imensurável de eterna espera.
Como Eurídice, celebro a canção nupcial
submersa pela imortalidade de Orfeu em mim.
















sábado, 27 de agosto de 2011

QUADRO MUDO

(Aos músicos e organistas da Congregação Cristã no Brasil)


Dos passos mudos na calçada noturna
e do violoncelo tocado daqui do firmamento,
dedilho o minuto comunicante do vazio.

Deste espaço instaurado entre a ausência,
a canção grave e o toque do sapato do mendigo,
rabisco a poesia na folha trazida pelo vento,
lá do lugar que os homens se mordem de incompletude.

Com meu olhar detalhista,
pinto a agonia nostálgica da mulher na estação,
aquela que se perdeu a espera dos amores
e apodreceu na escuridão.

Concluo minha música lírica na ultravida das galáxias:
“O Senhor é meu pastor nada me faltará"
E eis que o meu cálice de palavras veio a transbordar.


domingo, 10 de julho de 2011

GALÁXIAS DOS HOMENS

Conhece-te a ti mesmo
Examine as cordas nuas
de cada som da palavra em silêncio.
Arrebata a canção na agonia
dos homens com a flor esmagada no asfalto.

Desvista o avesso da musa branca poesia.
Lá fora as vozes do coral de Bach...
Jesus, bleibet, meine Freude!
Ao fundo do poço não ouves
o tom suave do firmamento.

Rasteje ao infinito do limo
Vinde
Vede
Celebrai
Cantai aqui no teatro das galáxias
E adornai-vos de valsa...
Porque a poesia no lixo pintou
o sagrado e arrebatou a abóbada
de cada tela celeste de tuas mãos em mim.