Por que escrevo?
Escrevo para não morrer.

(José Saramago)

sábado, 18 de junho de 2011

BANQUETE

Na palavra em branco
de brumas,
espumas
e silêncios inquietos,
dedilho o som do verso como uma musa ao piano,
dispo a nudez do poema para o banquete ao vento.

Cada página virada da valsa
vira vidros quebrados
que se fizeram milhões
de pedaços no sol estático.
(Foram versos escritos na metáfora da noite
e no clarão das estrelas).

A musa e o silêncio em mim
desabrocharam nos espinhos
da coroa de Cristo.
Até que a palavra, em estado de ciúmes e katharsis
ornamentou o banquete
das gotas de sangue,
embranquecendo o avesso da poesia
que minha alma nua pintou nos olhos de Deus.

 

 

segunda-feira, 9 de maio de 2011

ANATOMIA DA AUSÊNCIA

Dissequei a palavra vazio
na algema da alma como um traço de estar plena
e prenhe do aconchego em maresia.

Desvirei o avesso do utópico
e do inaudito corpo que se despiu
na ausência, ao fundo do labirinto.

E de algemas e emergentes silêncios,
os fios de sangue e carne se quebraram em prantos,
emergindo o corpo suado da poesia até firmamento.

terça-feira, 29 de março de 2011

A TERCEIRA MARGEM

(Ao admirável Guimarães Rosa)

 

Nas águas do tempo ininterrupto
revelo-me e desvelo
a nudez dos flancos da tarde.

À margem do mundo feito fosca luz
seguro a outra dimensão da margem
do rio que corre no voo da alma.
O rio explode nas veias comunicantes
entre mim, o finito e o infinito.

Enfim, dispo-me
dessas águas do tempo,
penetro na ponta dos pés das palavras...
Ouço do silêncio das outras águas
que o amor é o rio que transcende
a terceira margem para além do Universo.





sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

ESTRÓBILO

(Para Rosidelma Fraga)

Tua alma,
Estróbilo prenhe de poesia,
Distribui-se em sementes.

Sementes lançadas,
De um céu no solo,
A um solo no self.

Sementes levadas,
Pelo vento insular da tua voz.

Sementes plantadas,
Nos vales do mundo a gerar,
A gênese do verso.

Sementes que alimentam de infinito,
Os ócios e vazios do universo.

Fazendo-os férteis,
Repositórios de poesia.

Da poesia de que és,
A forma perfeita e original.

Da poesia que toma o corpo,
Coloniza a mente,
E fecunda o espírito.

Poesia senhora de si,
Poesia sem hora de ser.

Poesia em suma,
Em sumo,
Em soma de vidas.

Poesia vivida,
Princípio vivente.

Das sementes,
A vicejar impunemente.

A crescer inestancável,
No coração de quem sente.

De quem sente, como eu,
A luz chegar de repente.

(Autor: Hebane Lucácius)

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

HEBANE, O INFINITO

De quem são as marcas alvas do sorriso e os detalhes
de cada gesto que ao infinito
da alma a lira evanesce e ordena aos meus olhos que se calem?

Bem sabe um poeta quando as linhas curvas
de uma grande épica se cruzam
entre as brumas silenciosas da alma dos heróis.

‘Stamos em pleno silêncio e a palavra que sempre dominamos,
aquela que tiramos do avesso do verso e a forçamos trocar de roupas
agora zomba da mudez comunicante.

Dispo a imagem sacralizada da canção
e de lágrimas doces diante de ti...
E a voz instaurada em teu ser soa
a lírica e banha as pedras dos pedaços de meu ser.

A alma é o canto de todos os poetas
que se mascaram nas rochas amargas
para ouvir a valsa de Chopin no firmamento.
Desse infinito minha alma deságua
a espera de cada detalhe de tua alma em mim.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

FÊNIX SEM VÉU

 

Não guardarei a palavra extraída
do Véu de Fênix
ou nascida do nada, do Eco e da clareza
de Narciso...
Nem de Eros forçado de gozo e finitude.


O que levarei eu do mundo?
Pressinto rasgar
o destino nas linhas
de meu lápis para afagar a eternidade
do olhar fragmentado.

E em cada minuto
de um verso enjaulado,
torto e incompleto,
os meus pedaços de alma renascem.

Do murmúrio seco e opaco
as cinzas de Fênix imaculada transfiguram em mim
nos cacos líricos da imagem passada.

Vesti o véu de Fênix sem lirismo
Despi cada palavra no gemido
do silêncio e veias comunicantes,
até que Eros viesse sangra a voz inconclusa.


terça-feira, 24 de agosto de 2010

O ERMO DOS SILÊNCIOS

As distâncias somam o ermo
de cada silêncio
entre o vago da alma e as fendas do ser.

Pelos vales secos
o cheiro áspero exala
aqui em íntegro sereno, na luz sagrada
do olhar mudo e umedecido,
até que nossas vozes silenciosas, enfim, se casassem.