Por que escrevo?
Escrevo para não morrer.

(José Saramago)

domingo, 18 de dezembro de 2011

O FIO DO RISO EM TERESINA - Crônica de Viagem

A todos os grandes poetas do Piauí

 

 

Com o livro O fio do riso, de Ângela Lago que li na manhã de sábado, do dia 03 de dezembro, de 2011, organizei tantos outros livros e jornais e voei como águia para Teresina. Dormi profundamente e às vinte e três horas ouvi a voz do comissário de bordo a sobressaltar-me: “Senhores e senhoras, sejam bem-vindos a Teresina, a bela capital do Piauí”.
Desci as escadas do voo 3882, caminhei lentamente até a porta de desembarque e li a seguinte informação: “Quem sair por esta porta não poderá retornar”. Esteticamente, recebi os dizeres como um convite à permanência no local dos rios Poti e Parnaíba, ainda que passageira seja a viagem paradisíaca.
Pessoas de todas as cores vão para todos os lados, rostos piauienses, cearenses, recifenses, paulistas, goianos e troianos, nem sei quantas almas estiveram diante de mim. Bem que eu desejei escrever um poema, leitor. Porém, o fio que tece as minhas memórias é mais prosaico.
Aproximei de uma companhia de táxi e comprei um ticket para o Hotel Pio, na Avenida do Centenário e perguntei: “É perto?” A moça não respondeu com palavras. Somente gesticulou com as mãos: “mais ou menos”. Retirei treze reais e entreguei à moça. Concomitantemente, um estrangeiro pede um táxi para o Bairro Pirajá e paga os mesmos contos de réis. Olho a moça loira chupando chiclete e a fila andando. Misturo ao estrangeiro com a sensação de ser um personagem de Albert Camus. Noto o fio do riso nos lábios da moça e quase indaguei: “A senhorita está a rir de mim ou do estrangeiro?” Calei, escolhendo seguir o meu destino para regar as minhas rosas.
O motorista, com as mãos na cabeça e com ar de incredulidade, comentou: “Nossa, a senhora está somente com esses livros e poderia ir caminhando. Olhe lá o hotel”. Esqueci-me da elegância e, como sou filha de Deus, soltei um famoso: “Filha da puta”.
Só agora compreendi o riso da moça do chiclete. Aprendi que os livros abrem caminhos, desencadeiam risos e a imaginação. Porém, eles não possuem GPS e nem nos mostram quando seremos assaltados propositalmente, ainda que seja na beleza de uma terra maravilhosa que é o Piauí.
Enfim, cheguei ao lugar desejado no tempo de um minuto que custou treze contos. Lamentei o fato de que nunca ganharei treze contos de réis por minuto enquanto for professora. E muito menos como poeta. Enfim, logo à minha espera estava um menino com cabelos pretos tal como negro preto, cor da noite. Intertexto que caso com Negro preto, cor da noite, do poeta Afro-Brasileiro Lino Guedes lido por mim no voo entre Goiânia e Brasília. O menino também não se conteve quando narrei o fato. Desabrochou o fio do riso em Teresina.
Dia seguinte, encontrei-me com uma professora de Porto Alegre com os olhos azuis da cor do mar e a minha narrativa identificou-se com a dela. Soltamos o fio do riso e indignamos com a falta de bom senso da informante do ticket no aeroporto.
Logo mais à tarde, meus pés desfilavam numa palhoça a sentir o gosto típico de um prato à moda caseira. Na palhoça, eu que sou observadora e sensível, li a cor do riso de um moço com a pele marcada pelo sol teresinense, cuja pele dos pés abria-se pela dor, como alguém que bebeu a secura do cruel destino nas ruas ou na beira das pedras. Pensei: “Prosaico era o fio do riso da moça loira chupando chiclete feito vaca no capim molhado, ao passo que poético era o sorriso gordo e aberto do menino magro”. Era um sorriso enriquecedor. Traduzia uma luz germinada do fundo da alma.
Sobrevoei ao retorno de minhas raízes e todas essas imagens foram se mesclando entre a veia lírica das águas e as nuvens do céu. O fio do riso tornou-se pequeno em seu fio narrativo e diante da poesia abraçada ao fio celeste das águas piauienses e o sorriso sagrado do menino piauiense cor da noite.

 (por Rosidelma Fraga - dezembro, de 2011)

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

OXUM


(Para o grande poeta Domício Proença Filho, depois que li a grandeza de sua obra Dionísio Esfacelado: quilombo dos palmares)

Ressurgi
dessas águas
decantadas...
Vesti de Oxum
abracei Xangô
envolto no lençol azul
da cor do mar.

Dançamos
no Passo-da-Cegonha
Despimo-nos
na Mabunda.

Longe de Obá
acendemos
o fogo da luz
na fonte
das águas.

E nus
diante de Deus,
o criador das criaturas,
ficamos sem palavras,
eternamente esfacelados,
pois somos todos africanos
na terra onde Deus é o Verbo,
 e é o deus de Zâmbi.
Ele é o Alfa e o Ômega
que abençoa
meu amor
de Oxum em Xangô.


 

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

LA GIOCONDA

Celeste poesia
colhi entre as gotas
incomensuráveis
de teus olhos no balé
de pedras.

Bolhas de sabão é tua alma
maculada e sem véu.

Veredas solitárias
no calabouço
é a tua desilusão.

Límpido no áspero
do asfalto,
feito flor esfacelada
é o minuto eterno
da celeste poesia
que santifiquei no avesso de teu olhar:
aquele quadro comunicante
que outrora colhi e guardei
na ponta lírica
de meus versos em pedaços,
tal como La Gioconda desonrada,
mas eterna e terna poesia.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

POEMA SEM NOME

(Para Rosidelma - por Francisco Miguel de Moura)

Ouvi tuas mãos em teclas,
ao toque do órgão
e meu coração tremeu!


Vi tuas mãos de fada
me tocando
até que o sol voou
para manoel de barros.


Até que o grito de meus versos
entraram por tua pele,
por tua alma em chama.


Meu ser te escuta
e se encanta como outrora
ao som dos canarinhos
da gaiola.


E fico besta, sem pestanar,
sem levantar, sem nem querer
terminar meus versos.


Uma alegria, uma tristeza,
uma distância,
austraulopitecamente
santa.
(MIGUEL DE MOURA)

terça-feira, 22 de novembro de 2011

ASAS NEGRAS

OU A FOTOGRAFIA DO SILÊNCIO


Fiquei acorrentada
pela visitação
do anjo de asas negras,
de Lúcifer com a taça quebrada,
implorando para ser Deus por um dia.


Toquei no vinho dionisíaco
derramado
e sugado pela cigana do véu
que na lama gemia
feito a mulher de branco e feito
a última flor em chamas.

Eu quem nasci poeta para beber a dor alheia,
fotografei o silêncio da cigana
E despi meu sentimento de mundo...
Porque Deus fez a todos
Conforme a sua imagem
E a sua plenitude poética.



sábado, 19 de novembro de 2011

POEMA FABULOSO

(Para meu amigo poeta, Francisco Miguel de Moura)

Fabuloso Xico,
Aurora do Parnaíba
Bruma de Areias...
Um dia vestiu e bebeu poesia
Lavrou canções e reinventou-se.
Outrora foi flamingo nas asas de um menino
Sempre vivo: metade rio, metade sol...
O Parnaíba até sorriu
de teus olhos azuis
abraçados na cor do mar.

Por celebrar a ti, Xico,
minhas mãos desnudam em canto piauiense,
em versos de minha índia terra...

Em alma desmedida, quase fábula, quase prosa...
Derramo as gotas de palavras, a ti menino,
o quase perdido,
uma vez achado,
jamais esquecido.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

356 órgão maxsom por Rosidelma Fraga

http://www.youtube.com/watch?v=c59qUp1b0Pk&feature=BFa&list=ULAul4A30I3Os&lf=mfu_in_order