Por que escrevo?
Escrevo para não morrer.

(José Saramago)

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

ORFEU

 

Sangrando as mãos abrem-se
ao som da cítara,
com longas notas da ninfa
enlaçada pelo véu da serpente.

Das profundezas do Hades
meu canto em nebulosas vozes
vem soar para o firmamento.
Orfeu dorme, Senhor Deus
Orfeu nem olha para trás
Como fez a mulher de Ló.

Nem mesmo Virgílio
no meio dos versos proféticos
levar-me-ia às algemas emergentes...
Aristeu já está morto
Resta-me soltar as correntes e as dobras da morte
que encadeiam Orfeu...
Mas Orfeu eterniza-se no tempo de minhas memórias.
O passado é o tempo ininterrupto
É um minuto imensurável de eterna espera.
Como Eurídice, celebro a canção nupcial
submersa pela imortalidade de Orfeu em mim.
















sábado, 27 de agosto de 2011

QUADRO MUDO

(Aos músicos e organistas da Congregação Cristã no Brasil)


Dos passos mudos na calçada noturna
e do violoncelo tocado daqui do firmamento,
dedilho o minuto comunicante do vazio.

Deste espaço instaurado entre a ausência,
a canção grave e o toque do sapato do mendigo,
rabisco a poesia na folha trazida pelo vento,
lá do lugar que os homens se mordem de incompletude.

Com meu olhar detalhista,
pinto a agonia nostálgica da mulher na estação,
aquela que se perdeu a espera dos amores
e apodreceu na escuridão.

Concluo minha música lírica na ultravida das galáxias:
“O Senhor é meu pastor nada me faltará"
E eis que o meu cálice de palavras veio a transbordar.


domingo, 10 de julho de 2011

GALÁXIAS DOS HOMENS

Conhece-te a ti mesmo
Examine as cordas nuas
de cada som da palavra em silêncio.
Arrebata a canção na agonia
dos homens com a flor esmagada no asfalto.

Desvista o avesso da musa branca poesia.
Lá fora as vozes do coral de Bach...
Jesus, bleibet, meine Freude!
Ao fundo do poço não ouves
o tom suave do firmamento.

Rasteje ao infinito do limo
Vinde
Vede
Celebrai
Cantai aqui no teatro das galáxias
E adornai-vos de valsa...
Porque a poesia no lixo pintou
o sagrado e arrebatou a abóbada
de cada tela celeste de tuas mãos em mim.






 

 

sábado, 18 de junho de 2011

BANQUETE

Na palavra em branco
de brumas,
espumas
e silêncios inquietos,
dedilho o som do verso como uma musa ao piano,
dispo a nudez do poema para o banquete ao vento.

Cada página virada da valsa
vira vidros quebrados
que se fizeram milhões
de pedaços no sol estático.
(Foram versos escritos na metáfora da noite
e no clarão das estrelas).

A musa e o silêncio em mim
desabrocharam nos espinhos
da coroa de Cristo.
Até que a palavra, em estado de ciúmes e katharsis
ornamentou o banquete
das gotas de sangue,
embranquecendo o avesso da poesia
que minha alma nua pintou nos olhos de Deus.