Por que escrevo?
Escrevo para não morrer.

(José Saramago)

domingo, 10 de julho de 2011

GALÁXIAS DOS HOMENS

Conhece-te a ti mesmo
Examine as cordas nuas
de cada som da palavra em silêncio.
Arrebata a canção na agonia
dos homens com a flor esmagada no asfalto.

Desvista o avesso da musa branca poesia.
Lá fora as vozes do coral de Bach...
Jesus, bleibet, meine Freude!
Ao fundo do poço não ouves
o tom suave do firmamento.

Rasteje ao infinito do limo
Vinde
Vede
Celebrai
Cantai aqui no teatro das galáxias
E adornai-vos de valsa...
Porque a poesia no lixo pintou
o sagrado e arrebatou a abóbada
de cada tela celeste de tuas mãos em mim.






 

 

sábado, 18 de junho de 2011

BANQUETE

Na palavra em branco
de brumas,
espumas
e silêncios inquietos,
dedilho o som do verso como uma musa ao piano,
dispo a nudez do poema para o banquete ao vento.

Cada página virada da valsa
vira vidros quebrados
que se fizeram milhões
de pedaços no sol estático.
(Foram versos escritos na metáfora da noite
e no clarão das estrelas).

A musa e o silêncio em mim
desabrocharam nos espinhos
da coroa de Cristo.
Até que a palavra, em estado de ciúmes e katharsis
ornamentou o banquete
das gotas de sangue,
embranquecendo o avesso da poesia
que minha alma nua pintou nos olhos de Deus.

 

 

segunda-feira, 9 de maio de 2011

ANATOMIA DA AUSÊNCIA

Dissequei a palavra vazio
na algema da alma como um traço de estar plena
e prenhe do aconchego em maresia.

Desvirei o avesso do utópico
e do inaudito corpo que se despiu
na ausência, ao fundo do labirinto.

E de algemas e emergentes silêncios,
os fios de sangue e carne se quebraram em prantos,
emergindo o corpo suado da poesia até firmamento.

terça-feira, 29 de março de 2011

A TERCEIRA MARGEM

(Ao admirável Guimarães Rosa)

 

Nas águas do tempo ininterrupto
revelo-me e desvelo
a nudez dos flancos da tarde.

À margem do mundo feito fosca luz
seguro a outra dimensão da margem
do rio que corre no voo da alma.
O rio explode nas veias comunicantes
entre mim, o finito e o infinito.

Enfim, dispo-me
dessas águas do tempo,
penetro na ponta dos pés das palavras...
Ouço do silêncio das outras águas
que o amor é o rio que transcende
a terceira margem para além do Universo.





sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

ESTRÓBILO

(Para Rosidelma Fraga)

Tua alma,
Estróbilo prenhe de poesia,
Distribui-se em sementes.

Sementes lançadas,
De um céu no solo,
A um solo no self.

Sementes levadas,
Pelo vento insular da tua voz.

Sementes plantadas,
Nos vales do mundo a gerar,
A gênese do verso.

Sementes que alimentam de infinito,
Os ócios e vazios do universo.

Fazendo-os férteis,
Repositórios de poesia.

Da poesia de que és,
A forma perfeita e original.

Da poesia que toma o corpo,
Coloniza a mente,
E fecunda o espírito.

Poesia senhora de si,
Poesia sem hora de ser.

Poesia em suma,
Em sumo,
Em soma de vidas.

Poesia vivida,
Princípio vivente.

Das sementes,
A vicejar impunemente.

A crescer inestancável,
No coração de quem sente.

De quem sente, como eu,
A luz chegar de repente.

(Autor: Hebane Lucácius)

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

HEBANE, O INFINITO

De quem são as marcas alvas do sorriso e os detalhes
de cada gesto que ao infinito
da alma a lira evanesce e ordena aos meus olhos que se calem?

Bem sabe um poeta quando as linhas curvas
de uma grande épica se cruzam
entre as brumas silenciosas da alma dos heróis.

‘Stamos em pleno silêncio e a palavra que sempre dominamos,
aquela que tiramos do avesso do verso e a forçamos trocar de roupas
agora zomba da mudez comunicante.

Dispo a imagem sacralizada da canção
e de lágrimas doces diante de ti...
E a voz instaurada em teu ser soa
a lírica e banha as pedras dos pedaços de meu ser.

A alma é o canto de todos os poetas
que se mascaram nas rochas amargas
para ouvir a valsa de Chopin no firmamento.
Desse infinito minha alma deságua
a espera de cada detalhe de tua alma em mim.